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“Um bom arranjo físico é condição imprescindível para uma boa ergonomia”

arranjo

Fonte: saberemfoco.zip.net

Desde 1949, diversas pesquisas têm sido publicadas na área de ergonomia e as conclusões são unânimes sobre os benefícios do estudo dela em um ambiente de trabalho. Observa-se que é tendência mundial investimentos em equipamentos e máquinas mais ergonômicos e em ambientes com características adequadas e saudáveis. Um exemplo disso é a certificação WELL para edifícios, que foca principalmente em saúde e bem-estar dos ocupantes de prédios.

Apesar dos avanços consideráveis em empresas brasileiras, ainda há muito que se fazer como mostra o estudo a seguir. Em uma revista cientifica interdisciplinar publicada por alunos da graduação da USP, foi feita uma análise ergonômica em um posto de trabalho de confecção de roupas femininas em João Pessoa, no qual foi evidenciado cadeiras com altura irregular, sem espaçamento e conforto adequado, ventilação e iluminação deficiente. Com essa estrutura antiga e mal projetada, os resultados não poderiam ser diferentes, reclamações de dores lombares, desestímulo para trabalhar e improdutividade. É fácil imaginarmos no contexto atual no qual grandes marcas vendem seus produtos manufaturados de lugares apertados, sem boa ventilação e iluminação, e trabalho análogo à escravidão. Contudo, não precisa ir tão longe para exemplificar a falta de um bom arranjo físico. Em uma sala de aula, comumente, encontram-se cadeiras de madeiras duras, espaços apertados e sujos, calor excessivo e iluminação precária. Quem garante que os resultados das provas são somente atrelados à falta de um estudo eficiente?

Em um estudo independente realizado no ambiente de trabalho dos americanos em 2006 (GENSLER, 2006 apud HAMMED, A; AMJAD, S, 2009) com mais de 2.000 participantes de diferentes níveis representando 08 indústrias, mostrou que quase 90% dos entrevistados acreditam que um melhor projeto de layout do local de trabalho resultaria em uma melhor média de desempenho dos funcionários. Uma estimativa foi feito pelos executivos nessa entrevista, em que quase 22% de aumento na performance das empresas poderiam ser conseguidos se os escritórios fossem melhor projetados.

Há quem acredite que é preciso fazer grandes investimentos em ergonomia para melhorar a execução das atividades exercidas pelos operadores. Logicamente haverá custos na readaptação e troca de materiais, máquinas e equipamentos. Porém, ás vezes medidas pequenas são altamente eficazes como visto em um estudo de caso do setor automobilístico por alunos da PUC de Minas Gerais. Foram analisados todas as operações de demanda, recebimento e inspeção da matéria-prima, apoio logístico e processo de fabricação da travessa dianteira. Eles identificaram que o posicionamento do rack utilizado no processo solda era muito baixo, fazendo com que o operador tivesse que agachar para posicionar a peça, excesso de deslocamento realizado na mesma operação (perda de tempo no processo) e o transporte das peças do setor de controle de qualidade para a pintura, realizado por esforço humano (fadiga excessiva ao operador). Como medidas corretivas foram sugeridas: desenvolver um carrinho com altura adequada para as atividades e que se aproxime mais da célula de produção, reduzindo distâncias no processo e também um triciclo para movimentação de cargas, que já é realizado em outras operações na empresa.

Em outro estudo que teve como objetivo determinar um layout que aumentasse a produtividade do processo de uma indústria de imóveis no Paraná e que os funcionários executassem o trabalho de forma correta. Diante dos resultados obtidos, foi proposto um layout celular, por causa da flexibilidade desse tipo de arranjo físico, foi sugerido redimensionamento de bancadas de trabalho, e por fim sugeriu-se rodízio entre funcionários nas células. Apesar de o rodízio diminuir a especialização da atividade, ele é viável e garante menos esforço repetitivo (LONGO, M. T; SCHEIDT, L. T; SOARES, K. A; SANTOS, V. C, 2015).

Se o objetivo do arranjo físico é distribuir espacialmente os elementos que compõem o sistema homem e máquina e o da ergonomia é estudar a relação do homem, seus meios e espaços de trabalho. Pode-se afirmar que eles estão intimamente ligados e quando se faz um arranjo físico visando o bem-estar do trabalhador, certamente haverá um enorme ganho na produtividade, porque, afinal este é o grande norteador usado para convencer qualquer empresário a investir-se em um bom ambiente de trabalho. Além da produtividade, notam-se ganhos na qualidade de vida dos funcionários, redução de absenteísmo, redução de acidentes de trabalho, diminuição de fadiga, melhoria na qualidade do produto e no tempo gasto com produção.

Porém, parece-me que está surgindo um efeito placebo nos ambientes de trabalho, do que adianta fazer a animada ginástica laboral como medida ergonômica e voltar depois para o mesmo lugar que adoece? Do que adianta o médico dar um analgésico sendo que o efeito de relaxamento só vai durar um pequeno período? O trabalhador tem que vestir o equipamento e não ao contrário, temos que analisar cada caso, pois as pessoas não são iguais, e além de tudo, são seres humanos que merecem trabalhar em um ambiente sadio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Garbie, I. H. An Experimental Study on Assembly Workstation Considering Ergonomically Issues. 41st International Conference on Computers & Industrial Engineering.  Department of Mechanical and Industrial Engineering, Sultan Qaboos University. Oman.

Longo, M. T; Scheidt, K. A; Rodrigues, G. T; Santos, V. C. Layout e ergonomia: um estudo de caso em uma indústria de móveis no norte do Paraná. In: XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO. 2015. Ponta Grossa, Paraná. Anais. Paraná.

Ribeiro, N. B. N; Saint-Tves, J. E. A; Guimaraes, W. A. B; Souza, A. J. D. Ergonomia e Análise de Métodos e Processor: Estudo de Caso em uma Empresa do Setor Automobilístico. In: XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO. 2015. Fortaleza. Anais. Fortaleza.

Silva, J. P. S; Lacombe, J. A; Tavares, E. M; Varela, A. M; Léllis, J. A. A Ergonomia como um Fator Determinante no Bom Andamento da Produção: um Estudo de Caso.  Revista Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar da Graduação. USP – São Paulo.

 

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Um Perigo Silencioso

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Fonte: IdeiaWeb.org

Outro dia ouvi um comentário de meu professor que o cantor Leandro (da dupla Leandro e Leonardo) morreu de tumor devido exposição direta com o uso intensivo de agrotóxicos na plantação de tomates em que trabalhava quando adolescente. Isso se chama efeito mediato, ou seja, os efeitos são manifestados depois de muito tempo de contato. Por esse motivo que titulei este artigo de “Um Perigo Silencioso“, um tema importante que merece destaque, porque afinal agrotóxico é um produto que está presente na maioria de nossas refeições (70% dos alimentos).

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Para ter uma ideia da dimensão, o consumo de agrotóxicos no Rio de Janeiro aumentou 5.000% em três anos (FIOCRUZ). O grande problema nessa questão, além do uso indiscriminado e sem controle, são os ingredientes usados na aplicação, dos quais 55 mais utilizados no Brasil, 22 são proibidos na União Europeia. Há um tipo de herbicida largamente usado nas lavouras de soja, chamado Glifosato que foi estudado por uma pesquisadora norte-americana do MIT. Esse estudo revelou que até 2025, uma a cada duas crianças nascerá autista (El País).

Os agricultores são os mais vulneráveis quando se fala em agrotóxicos, pois eles estão expostos diretamente com os produtos. Conforme dados da SINITOX (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas – Ministério da Saúde/FIOCRUZ), entre os anos de 1999 a 2009, 1 pessoa a cada 90 minutos foi intoxicada por agrotóxicos no país. Infelizmente, não há um número preciso de notificações em razão da dificuldade dos profissionais de saúde e de atendimento assistencial e psicossocial não sabem ou não conseguem lidar com situações de intoxicação ocupacional. (Claudio Silva para FioCruz).

Esse cenário é agravado pela falta de percepção de riscos pelo trabalhador no uso de agrotóxicos em que muitas vezes são chamados caridosamente como defensivo agrícola, remédio, tratamento, etc. Nota-se também que há certo machismo nessa área, trabalhadores são chamados de fracos quando sentem algum desconforto na hora da aplicação (dores de cabeça, vômitos..). Quando o risco é “invisível” aos olhos, a percepção fica ainda mais fragilizada. Por exemplo, o uso de roupas de trabalho ou EPIs (equipamentos de proteção individuais) também parece estar bastante relacionado à percepção do risco e pode chegar a ser incorporado por hábito cultural para enfrentar riscos cotidianos (ex. uso do chapéu para proteger-se do sol). Quando o risco é fácil e prontamente perceptível, roupas especiais de trabalho são facilmente usadas como é o caso dos vaqueiros, que chegam a utilizar calças bem grossas mais montar (GARCIA, E.).

A NR-31 (Segurança e Saúde no trabalho na Agricultura, Pecuária, Silvicultura, Exploração Florestal e Aquicultura) veio assegurar a saúde e segurança do trabalhador no meio rural. No item 31.3.3 cita as obrigações do empregador rural. Dentre as mais importantes, temos:

a) realizar avaliações dos riscos para a segurança e a saúde dos trabalhadores e, com base nos resultados obtidos, adotar as medidas de prevenção e proteção adequadas;

b) assegurar que sejam fornecidas aos trabalhadores instruções compreensíveis em matéria de segurança e saúde, bem como toda orientação e supervisão necessárias ao trabalho seguro;

d) adotar medidas de avaliação e gestão dos riscos, com a seguinte ordem de prioridade: eliminação dos riscos, controle de riscos na fonte, redução do risco ao mínimo, inclusive através de capacitação;

e) adoção de medidas de proteção pessoal, no caso de persistirem os riscos.

Nesta norma regulamentadora, fica claro a preocupação com a eliminação dos riscos como sendo prioridade, não só com a utilização do EPI, mas também em relação à ergonomia, fatores climáticos e topográficos e água potável.

Sobre a utilização dos EPIs, um artigo da revista Cipa (ano 38, n. 438) afirma que a utilização desses equipamentos pelos trabalhadores expostos a agrotóxicos é muito efetiva nas médias e grandes propriedades agrícolas, porém é um grande desafio em pequenas propriedades, pois se limita às condições financeiras e à falta de informação.

Nesta mesma norma, foi estipulado o SESTR (serviço especializado em segurança e saúde no trabalho rural) para os empregadores com mais de 50 funcionários, não atingindo o pequeno agricultor.

Outra questão é sobre a receita agronômica, no qual é obrigatória na compra de agrotóxicos e é feita por profissional legalmente habilitado. Nela, o profissional agrônomo faz prescrição com as recomendações de uso de EPI, porém não está em acordo com suas atribuições.

Por fim, minha mensagem a nós consumidores é que fiquemos mais atentos aos efeitos acumulativos dos alimentos contendo agrotóxicos; aos governantes e ministérios do trabalho, saúde e agricultura que fiscalizem mais as propriedades agrícolas, cobrem os produtores pela administração correta e segura desses produtos, assegure a segurança dos trabalhadores e não dê incentivos fiscais à produção e comercialização de pesticidas; empregadores zelem pela segurança e saúde de seus trabalhadores, eles merecem ter uma vida sadia e digna.

Recomendo assistir ao documentário “O Veneno está na mesa II” dirigido por Silvio Tendler. Esse documentário atualiza e avança na abordagem do modelo agrícola nacional atual e de suas consequências para a saúde pública. LINK: https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

Referências:

GUIVANT, J.S. Percepção dos Olericutores da Grande Florianópolis (SC) sobre os riscos decorrentes do uso de agrotóxicos. Rev. Bras. Saúde Ocup. 22, 1994.

http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/o-desafio-de-se-comprovar-na-justica-intoxicacao-por-agrotoxicos

http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/brasil-ainda-usa-agrotoxicos-ja-proibidos-em-outros-paises-9823.html

BRASIL. Ministério da Saúde. FIOCRUZ. SINITOX. http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=home

http://www.icict.fiocruz.br/content/consumo-intensivo-de-agrot%C3%B3xicos-no-rio-de-janeiro-revela-cen%C3%A1rio-de-intoxica%C3%A7%C3%B5es-

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/politica/1430321822_851653.html

GARCIA, Eduardo. Segurança e Saúde no Trabalho rural com agrotóxicos. Contribuição para uma abordagem mais abrangente. USP, 1996. Disponível em: file:///C:/Users/NOTEBOOK/Downloads/dissert_agrotox_Eduardo_Garcia.pdf.

NR-31. Disponível em: http://acesso.mte.gov.br/data/files/8A7C816A4295EFDF0143067D95BD746A/NR-31%20(atualizada%202013).pdf.

Engenheira Ambiental e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo Centro Universitário FEI São Paulo.

 

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Segurança em parques de diversões: alerta para os pais

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Parques de diversões são como se fosse um sonho para muita gente. Não só para crianças, mas para adultos também. Quem não tem sonho de visitar a tão famosa Disneyland? Parque de diversão, como o nome próprio diz, é para entretenimento e não um lugar para morrer, certo? Há pouco mais de um mês, de novo ouvimos falar de um novo acidente no parque no Rio de Janeiro, aonde um menino de 03 anos foi arremessado por que o cinto de segurança abriu. Notícias como essa estão se tornando um tanto quanto corriqueiras e a grande verdade é que ninguém se preocupa com a segurança do parque até que ocorra uma grande tragédia. Aliás, quando ocorre algum acidente, a maioria de suas famílias são desamparadas pela justiça comum pelo seus longos processos intermináveis.

Foi por esse motivo que acho fundamental tocar nesse assunto. No que diz a respeito de legislações sobre o assunto, somente há normas técnicas feitas em 2011 pela ADIBRA (associação das empresas de parques de diversões do Brasil) e ABNT. Acontece que essas normas não têm força de lei, elas precisam ser mencionadas por alguma lei. Como consequência, ninguém segue de fato.  Encontrei um projeto de lei (n° 2.321) feito em 2011 pelo deputado Leopoldo Meyer, no qual estabelece regras de segurança para implantação e funcionamento de parques de diversão e estabelecimentos similares, porém, infelizmente, não encontrei a evolução desse projeto.

Para funcionar um parque, é necessário uma série de documentos, dentre eles, permissão de funcionamento emitida pelo corpo de bombeiros, responsabilidade técnica pela instalação e funcionamento do parque e licença de funcionamento da prefeitura. Dentro da segurança, o treinamento com as pessoas que operam os brinquedos, o controle da manutenção preventiva e corretiva, e um amplo sistema de segurança e emissão da ART e laudo das instalações feita por profissionais habilitados e qualificados são fundamentais para manter a eficácia das tomadas de ações de segurança. No site do Hopi Hari, aonde ocorreu um grande acidente envolvendo uma jovem estudante, menciona diversos documentos e afirmam categoricamente, que possuem um programa completo de manutenção com foco na prevenção.

No meu entendimento, além das mães e pais ficarem mais atentos na segurança do parque e exigirem um brinquedo seguro (ex. inspeção visual), a fiscalização pelos órgãos públicos é imprescindível para esse processo.

Contudo, a fiscalização é dificultada quando os parques mudam de cidade, os chamados parques itinerantes. Neste caso, os órgãos deverão ser conversados a fim de garantir fiscalização sobre estes parques.

Como medidas de segurança e garantir um dia harmonioso e de alegre, aqui vão algumas dicas para os responsáveis (pais e mães):

-Os brinquedos devem ter informações claras e visíveis sobre altura, peso e os riscos a portadores de doenças ou limitações físicas;

-Observar nos brinquedos ferrugem, rachaduras, pinos soltos ou deterioração;

-Testar a trava de segurança e o cinto no mínimo duas vezes, se estiverem soltos, não entre no brinquedo;

-Pista de patinação ou kart devem oferecer equipamentos de proteção individuais, como capacetes e cinto de segurança, além de isolamento de proteção na pista.

  • Assistam a reportagem feita pelo programa Fantástico em fevereiro deste ano:

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2016/02/acidentes-em-parques-de-diversoes-nao-levam-punicao-dos-culpados.html

Referências:

-Site do Hopi Hari. Disponível em: http://www.hopihari.com.br/home/seguranca.aspx

-Projeto de lei n° 2.321. Disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=0A86D538B2F2C5FB5FA2024DE41DD0AA.proposicoesWeb1?codteor=927673&filename=Avulso+-PL+2321/2011

 

Jeniffer Felicio Abegao

Engenheira Ambiental e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo Centro Universitário FEI São Paulo.

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SEESMT

Outro dia estávamos estudando a lei n° 6214/1977 que altera o capitulo V da CLT, relativo à segurança e medicina do trabalho na disciplina de legislação e normas técnicas. No artigo 162 refere-se à obrigação das empresas em manter os serviços especializados em segurança e em medicina do trabalho (SESMT). Nesta época, não existia a especialização em engenharia de segurança do trabalho, somente em 1985 foi criada e nascemos de direito. Portanto, a nomenclatura correta é SEESMT, que são os serviços especializados em engenharia de segurança e em medicina do trabalho (não vamos nos excluir ein pessoal risos).

Este artigo foi regulamentado na norma regulamentadora n°4. Nesta norma, o número de profissionais em questão será conforme o grau de natureza do risco das atividades da empresa e seu número de empregados.  Esses profissionais poderão ser: o técnico de segurança do trabalho, engenheiro de segurança do trabalho, auxiliar de enfermagem do trabalho, enfermeiro do trabalho e por fim, médico do trabalho. Por exemplo, uma empresa que tenha serviços de construções de rodovias e ferrovias (grau 04) e 600 funcionários, obrigatoriamente, deverá ter em seu quadro de funcionários, quatro (04) técnicos, um (01) engenheiro, um (01) auxiliar de enfermagem e um (01) médico do trabalho. No entanto, o dimensionamento começa a valer a partir de 50 funcionários, ou seja, se a empresa tiver 49 funcionários não precisa ter nenhum profissional de segurança do trabalho mesmo se tiver um grau de risco elevado.

Eu comecei a pensar sobre todas essas informações que eu tinha absorvido e refletir sobre isso no cenário de trabalho brasileiro.

Pequenos negócios, ou seja, micro e pequena empresa são fundamentais para a economia do país, pois juntos somam 27% do PIB (8,9 milhões de empresas). Na fatia de distribuição dos setores de atividade das MPEs paulistas, 11% são do setor de indústrias. Os segmentos destacam-se: construção (15,3%), confecção de artigos de vestuário (14%), serviços especializados para construção (12,4%), fabricação de produtos de metal (7,7%) e gráficas e reprodução de mídias gravadas (4,7%). Os dados consideram estabelecimentos de até 99 empregados (SEBRAE-SP, 2012)

Vamos ao seguinte exemplo, uma micro empresa que fabrique artefatos de borracha e plástico com 49 funcionários não precisa ter alguém responsável pela segurança de seus empregados. Aposto que nenhum fiscal do trabalho aparece por lá, pois não é uma empresa representativa. Como fica a segurança deles?

Na fabricação de borracha, há diversos processos que expõem o trabalhador aos riscos relacionados aquele trabalho. Um deles é o processo de vulcanização, que é a adição de enxofre sob aquecimento e na presença de catalisadores, podendo provocar danos pulmonares diversos. Adicionalmente, há riscos das poeiras de aditivos, do material derretido, negro do fumo que podem levar a danos irreparáveis na saúde do trabalhador. Por isso é importante supervisão de um profissional capacitado para tal.

Atrelando ao fato que essas empresas têm um orçamento apertado, muitas vezes enfrentam dificuldade para pagar seus funcionários no final do mês, fica difícil ou quase impossível em contratar algum funcionário de segurança, ou até mesmo implantar medidas de controle que visem a segurança do trabalhador, como os ventiladores locais exaustores.

Diante desse cenário, necessita-se de auxílios externos que visem à proteção desse trabalhador. Como por exemplo, educação e treinamento oferecidos pelos sindicatos a baixo custo, descontos e incentivos fiscais na aquisição de medidas de controle coletivo e individuais, ou até mesmo consultoria de profissionais com menor custo de mercado. Se nós não mudarmos essa realidade, ficaremos com aquela triste estatística de acidentes de trabalho que ocorre no mundo (um trabalhador morre a cada 15 segundos vítima de acidente de trabalho) (OIT).

Referências:

-SEBRAE-SP: Disponível em: http://www.sebraesp.com.br/arquivos_site/book_pesquisas_pequenos_negocios_paulistas.pdf%20.

-Lei n° 6.514/1977. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6515.htm

-ONU BR. Disponível em: https://nacoesunidas.org/oit-um-trabalhador-morre-a-cada-15-segundos-por-acidentes-ou-doencas-relacionadas-ao-trabalho/

Jeniffer Felicio Abegao

Engenheira Ambiental e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo Centro Universitário FEI São Paulo.

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Percepção de Risco

O conceito de percepção pode ser bastante complexo, pois influi em questões intrínsecas que formam cada indivíduo humano, de maneira única. O ato de perceber, ou seja, de tomar consciência é o primeiro passo do processo cognitivo e é a capacidade de interpretar as sensações e transforma-las em informações. As sensações, cuja função é receber estímulos de meio externo captado por algum de nossos cinco sentidos (olfato, tato, audição, visão e gustação) e codificar em sinais neurais. Então se pode afirmar que um indivíduo que apresente alguma deficiência sensorial terá menor percepção que pode levar a um risco maior em determinadas situações como, por exemplo, um deficiente olfativo que não sentirá o odor característico de um vazamento de gás de cozinha, visto que este não contém cor visível aos olhos humanos. A percepção, além de estar ligada a fatores cognitivos e fisiológicos está relacionada às crenças de cada um. Por isso é tão difícil avaliar a percepção de risco de trabalhadores em diferentes ramos de negócio e sem dúvida é um desafio para os gestores e líderes que gerenciam os riscos nas empresas.

Com o advento da revolução industrial e a introdução da tecnologia e modernidade, o ser humano virou uma espécie de robô, sem pensar muitas vezes de maneira critica e criativa como vimos no filme “Tempos Modernos” com o encantador Charlie Chaplin. Em nossos locais de trabalho, muitas vezes apertamos o modo automático, aniquilando nossa percepção e a atividade se torna repetitiva e exaustiva que por algum descuido, em determinadas funções, pode ocasionar graves acidentes.

Portanto, é imprescindível que o trabalhador perceba os riscos associados às suas atividades, isto é, tenha a capacidade de identificar os perigos e reconhecer os riscos. Para isso é preciso que ele pense e aja de maneira proativa, formando assim o tanto falado comportamento seguro.

Mas não é simples como parece, senão não existiriam tantos acidentes de trabalhos acontecendo no mundo. Dentro do campo de percepção de risco, percebe-se que há ruídos de comunicação, e não são interferências sonoras não. É que cada pessoa interpreta uma informação de acordo com diversos fatores que podem levar a distorções. Segundo Larkin e Larkin (2007 apud Silva e França, 2011), somente 4% das pessoas conseguem entender uma simples comunicação de segurança, isso acontece por causa da baixa qualidade dessas comunicações. De acordo com Robbins, Judge e Sobral (2011, p. 342-344 apud May, Ramos e Dietrich, 2015), a filtragem, percepção seletiva, o excesso de informações, as emoções, a cultura, gênero, idioma e também o medo da comunicação interferem diretamente na forma de decodificação das mensagens e no processo de discernimento do contexto da mensagem. Por isso essa comunicação deve ser clara e bem estudada, com linguagem diferenciada de acordo com o grupo dentro da empresa. De nada serve um treinamento sem o entendimento pleno dos participantes, sem o engajamento de todos. Como disse Paulo Freire, um educador Brasileiro: “A Educação qualquer que seja ela, é sempre uma teoria do conhecimento posta em prática”. A educação adquirida em um treinamento sobre segurança tem que fazer parte da cultura organizacional, deve ser posta diariamente na prática, e não ficar somente na teoria.

Bibliografia:

DIETRICH, M.; RAMOS, M. C. L.E; MAY, P. Influência das Tecnologias de Informação e Comunicação nas Instituições de Ensino Superior e Organizações. XV Colóquio Internacional de Gestão Universitária. 12 de Abril de 2015.

Da Silva, B. F. & França, S. L. B. Análise da Percepção do Trabalhador Sobre os Riscos no Ambiente de Trabalho: Estudo de Caso em uma Unidade de Operação de Empresa de Energia Brasileira. VII CONGRESSO NACIONAL DE EXCELÊNCIA EM GESTÃO, 12 e 13 de agosto de 2011. Anais

 

Jeniffer Felicio Abegao

Engenheira Ambiental e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo Centro Universitário FEI São Paulo.