Categorias: Meio ambiente

Poluição visual: Redes elétricas aéreas

afiacao
Olhem para essa imagem (é da Rua Oscar Freire, no bairro Cerqueira César). O que vocês veem de diferente das outras ruas? Olhem atentamente nas calçadas e notem que não existem postes de redes elétricas. Como assim? É porque eles enterraram a fiação (debaixo da terra) em cinco quarteirões da Oscar Freire. Fonte: Google Maps

Como estão, meus brotos?

Sempre que passo perto de fios elétricos na rua, redobro minha atenção. Quantas vezes vocês passaram em uma rua e viram aqueles fios elétricos caídos e expostos no chão? Ou viram aquela arte linda de fios emaranhados que a gente nem entende para que serve? Hoje quero abordar um pouco esse assunto, pois além de poluir visualmente e atrapalhar os pedestres, fios elétricos podem causar acidentes graves e fatais, principalmente em dias de chuva (o Brasil é o país onde existe a maior incidência de raios em todo o mundo). Não é à toa que esse assunto merece destaque em termos de planejamento urbano.

Para entendermos o motivo do super congestionamento de fios que passam pelos postes, é preciso saber quais empresas são responsáveis pela fiação. O poste é propriedade da companhia elétrica que o aluga para outras companhias. Cada poste pode ter até seis pontos para instalação de cabos de comunicação (só que na prática chega a ter quase 20). Esses cabos de comunicação incluem serviços de TV a cabo, internet e telefonia, e também iluminação pública. A cada dois dias, três fios de alta tensão caem em São Paulo, provocando acidentes e até incêndios (vocês se lembram daquele triste episódio que aconteceu na favela em Campo Belo, deixando 2 mil pessoas desabrigadas ano passado? Então, a causa do acidente foi a queda de um fio de alta tensão).

afiacao 2

Quanta confusão!!! Quem se aventura a contar quantos fios tem aí? Haha Fonte: G1

O problema das redes convencionais (maioria em São Paulo) é o fato de que elas possuem pouca blindagem para as descargas atmosféricas (raios), têm baixa confiabilidade e apresentam uma alta taxa de falhas, e ainda é exigido que sejam feitas podas drásticas nas árvores próximas.  Mas o grande problema é que, infelizmente, não há fiscalização (concessionárias e prefeitura) e manutenção devida (prestadoras de serviço), e o que se vê é essa desorganização total.

Em 2013, a prefeitura de São Paulo anunciou um projeto para enterrar os fios elétricos (como na primeira foto) e recuperar as calçadas de diversos bairros e avenidas pela cidade, com uma estimativa de custo de 15 bilhões de reais. O grande empecilho foi a arrecadação do dinheiro; a sugestão seria realizar parcerias público-privadas (as empresas que usariam as galerias pagariam a maior parte do projeto e a prefeitura pagaria o resto), porém houve um impasse: a concessionária de energia (AES Eletropaulo) quer que a prefeitura assuma 70% dos custos, pois eles alegam que os custos das obras civis não têm nada a ver com eletricidade, e como ela é dona de quase todos os postes da cidade, e fatura milhões com isso, eles dizem que esse lucro é usado para subsídio da energia elétrica. Há uma lei municipal que obriga as concessionárias a enterrarem 250 km de fios por ano, mas na prática não é cumprida. Olhem no final desse post uma tabela com as principais cidades brasileiras e suas modestas extensões de enterramentos de rede.

Aí pergunto, quais são as vantagens do enterramento de fios elétricos? São muitas, tais como:

-Aumento de segurança para população, com redução de acidentes por ruptura de condutores e contatos acidentais (por exemplo, criança que empina pipa perto da fiação);

-Redução de custos de manutenção, como podas de árvores;

-Redução significativa de interrupções, como quedas de energia;

-E claro, o embelezamento da cidade, que fica mais limpa e espaçosa.

E as desvantagens? Eu diria que a degradação da tubulação por roedores (eles usam para afiar seus dentes), mas a maior é com certeza a questão financeira. O custo de implantação e manutenção (difícil acesso) é bem alto (três vezes mais).

Enquanto tudo isso mais parece um sonho (bem que poderia ser verdade), apresento a forma mais tangível para a realidade brasileira, que são as redes elétricas aéreas, mas compactas. Qual é a diferença da convencional? Bom, a rede de distribuição convencional usa fios desencapados e espaçados, já a compacta tem todos os fios encapados e próximos.  Essa maior aproximação gera menos problemas com arborização (espaço de poda menor), são mais seguras para o público, e apresentam maior confiabilidade e qualidade no fornecimento de energia. Atualmente a cidade de Maringá, no Paraná, já usa esse sistema compacto em 100% das redes urbanas. Com relação ao custo, a instalação do sistema compacto é um pouco mais cara, mas exige menos manutenção do que a convencional (79,5% de gastos menores).

Copel investe na modernização de suas redes de distribuição com a instalação de redes compactas. Foto: Divulgação Copel

Foto: Divulgação Copel

 

obra_rede_subterranea

Dutos com fios elétricos em rede subterrânea. Fonte: LT Sul Construções Elétricas

Bibliografia:

-Análise Comparativa dos custos de diferentes redes de destruição de energia elétrica no contexto de arborização urbana. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rarv/v30n4/31690

-Arborização viária X Sistemas de distribuição de energia elétrica: Avaliação de custos, estudos das podas e levantamentos fitotécnicos. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rarv/v30n4/31690

-Revista Veja. Brasil, Cidades. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-cada-dois-dias-tres-fios-de-alta-tensao-caem-em-sp/

-Celec. Normas Técnicas. Disponível em: http://novoportal.celesc.com.br/portal/images/arquivos/normas-tecnicas/instrucoes-normativas/i3130021.pdf