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Duas horas faz diferença?

eyes-and-business-10Faz uma semana que foi comemorado o dia do trabalhador e eu não poderia deixar de comentar sobre esse dia tão especial em nossas vidas (é no trabalho que passamos a maior parte do tempo). É o marco de nossas conquistas como trabalhadores, que antes tínhamos uma jornada exaustiva, de 10 a 12 horas diárias, e hoje com 44 horas semanais, temos mais tempo livre para dedicarmos aos nossos hobbies e atividades que dão prazer.

Porém, infelizmente, o Brasil é o quarto país do mundo com mais acidentes de trabalho registrados (Associação de magistrados da justiça do trabalho da primeira região – AMATRA1) só perdendo para a China, Índia e Indonésia.

Hoje quero falar sobre a relação de horas extraordinárias e índice de acidentes de trabalho. Será que quanto mais horas trabalhadas, maior a chance de acontecer um acidente de trabalho? Parece-me um pouco óbvio, entretanto, queria ir mais a fundo e ter dados consistentes e confiáveis para embasar tal argumento.

Um trabalho de Anna Dahlgren da universidade de Estocolmo, na Suécia, relaciona longas horas de trabalho com níveis de stress. Essa alteração psicológica é associada a um aumento da vulnerabilidade de doenças como diabetes e aumento de enfarto do miocárdio. Pode também aumentar a fadiga e diminuir o desempenho no trabalho. Maria José Giannella Cataldi indicou na coletânea do fórum de saúde e segurança no trabalho do estado de Goiás em 2013 que em uma pesquisa recente patrocinada pela ISMA (Internation Stress Management Association), demonstrou que ocupamos o segundo lugar em número de trabalhadores acometidos pela “Síndrome de Burnout“ entre os países Israel, Japão, China, Hong Kong, Fiji e Brasil.

Esses fatores de stress e fadiga provocados pelas longas jornadas podem levar a acidentes de trabalho. Diversos estudos foram feitos para avaliar essa relação, porém muitos continuam incompletos e equívocos. O motivo deve-se pelas deficiências na metodologia, poucas amostras realizadas, generalizações de evidências encontradas na indústria (circunstâncias específicas de cada ramo), e por fim, falhas em contabilizar levando em conta diferentes características dos indivíduos (idade, gênero e status de saúde).

Um estudo conduzido pela Universidade de Massachusetts em 2005, evidenciou o impacto das horas extras e longas jornadas de trabalho em lesões e doenças ocupacionais em 110.236 mil trabalhadores Americanos em 13 anos. Essa pesquisa analisou a associação entre o cronograma da extensão da jornada de trabalho e a incidência de acidentes de trabalho relatados, ajustando a influência das diversas características, como idade, gênero, ocupação, setor da indústria, e região geográfica. Além dessas variações, há também outros fatores do trabalho em si (intensidade e exposição aos perigos) e fatores organizacionais (política de horas extras e supervisão).

Os resultados do estudo mostraram que trabalhadores com horas extras têm 61% mais chance de sofrer um acidente de trabalho do que aqueles que não trabalham mais do que o horário normal. Trabalhadores com cronogramas extensos (maiores de 12 horas por dia e 60 horas por semana) têm maiores chances de desenvolver lesões ou doenças ocupacionais.

Outras análises multivariadas indicaram que o aumento dos riscos não foi apenas o resultado dos exigentes horários de trabalho sendo concentrados e inerentes às atividades de trabalho ou indústria consideradas mais arriscadas.

Estes resultados são mais consistentes com a hipótese que longos períodos de trabalho indiretamente propiciam acidentes no ambiente de trabalho induzidos pela fatiga ou stress dos trabalhadores.

Nossa legislação trabalhista (CLT) determina períodos de descanso no turno (intrajornadas e interjornadas), repousos semanais e anuais que devem ser cumpridas pelos empregadores. A duração normal de trabalho pode ser acrescida de no máximo, 02 horas extras diárias com adicional de remuneração de 50% para os dias úteis e 100% nos domingos e feriados. Na prática, os empregadores abusam desses extras e os empregados contam com isso também, pois precisam desse extra no final do mês.

Além das pausas, é importante o rodízio entre os postos de trabalho para assegurar a saúde dos trabalhadores e minimização dos riscos. Temos que pensar nessas questões para evitar acidentes de trabalho ocorram em nossos ambientes de trabalho e para que comemoremos nosso dia do trabalho com muita alegria!

Referências:

CATALDI, Maria José Giannella. Stress e fadiga mental no âmbito do trabalho. Palestra. In: I Congresso Internacional sobre Saúde Mental no Trabalho. Goiânia: Instituto Goiano de Direito de Direito do Trabalho, 2004. Disponível em: https://www.passeidireto.com/arquivo/6651449/livro-saude-mental-no-trabalho/3

DAHLGREN, Anna. Work Stress and Overtime Work – Effects on Cortisol, Sleep, Sleepiness, and Health. Department of Psychology. Stockholm University. Disponível em: http://www.diva-portal.org/smash/get/diva2:189939/FULLTEXT01.pdfAnna

Agência Brasil. Brasil é quarto no mundo em acidentes de trabalho, alertam juízes. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-04/brasil-e-quarto-do-mundo-em-acidentes-de-trabalho-alertam-juizes

A E DembeJ B Erickson;R G DelbosS M Banks. The impact of overtime and long work hours on occupational injuries and illnesses: new evidence from the United States. Disponível em: http://oem.bmj.com/content/62/9/588.full

Jeniffer Felicio Abegao

Engenheira Ambiental e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo Centro Universitário FEI São Paulo.