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Um Perigo Silencioso

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Fonte: IdeiaWeb.org

Outro dia ouvi um comentário de meu professor que o cantor Leandro (da dupla Leandro e Leonardo) morreu de tumor devido exposição direta com o uso intensivo de agrotóxicos na plantação de tomates em que trabalhava quando adolescente. Isso se chama efeito mediato, ou seja, os efeitos são manifestados depois de muito tempo de contato. Por esse motivo que titulei este artigo de “Um Perigo Silencioso“, um tema importante que merece destaque, porque afinal agrotóxico é um produto que está presente na maioria de nossas refeições (70% dos alimentos).

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Para ter uma ideia da dimensão, o consumo de agrotóxicos no Rio de Janeiro aumentou 5.000% em três anos (FIOCRUZ). O grande problema nessa questão, além do uso indiscriminado e sem controle, são os ingredientes usados na aplicação, dos quais 55 mais utilizados no Brasil, 22 são proibidos na União Europeia. Há um tipo de herbicida largamente usado nas lavouras de soja, chamado Glifosato que foi estudado por uma pesquisadora norte-americana do MIT. Esse estudo revelou que até 2025, uma a cada duas crianças nascerá autista (El País).

Os agricultores são os mais vulneráveis quando se fala em agrotóxicos, pois eles estão expostos diretamente com os produtos. Conforme dados da SINITOX (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas – Ministério da Saúde/FIOCRUZ), entre os anos de 1999 a 2009, 1 pessoa a cada 90 minutos foi intoxicada por agrotóxicos no país. Infelizmente, não há um número preciso de notificações em razão da dificuldade dos profissionais de saúde e de atendimento assistencial e psicossocial não sabem ou não conseguem lidar com situações de intoxicação ocupacional. (Claudio Silva para FioCruz).

Esse cenário é agravado pela falta de percepção de riscos pelo trabalhador no uso de agrotóxicos em que muitas vezes são chamados caridosamente como defensivo agrícola, remédio, tratamento, etc. Nota-se também que há certo machismo nessa área, trabalhadores são chamados de fracos quando sentem algum desconforto na hora da aplicação (dores de cabeça, vômitos..). Quando o risco é “invisível” aos olhos, a percepção fica ainda mais fragilizada. Por exemplo, o uso de roupas de trabalho ou EPIs (equipamentos de proteção individuais) também parece estar bastante relacionado à percepção do risco e pode chegar a ser incorporado por hábito cultural para enfrentar riscos cotidianos (ex. uso do chapéu para proteger-se do sol). Quando o risco é fácil e prontamente perceptível, roupas especiais de trabalho são facilmente usadas como é o caso dos vaqueiros, que chegam a utilizar calças bem grossas mais montar (GARCIA, E.).

A NR-31 (Segurança e Saúde no trabalho na Agricultura, Pecuária, Silvicultura, Exploração Florestal e Aquicultura) veio assegurar a saúde e segurança do trabalhador no meio rural. No item 31.3.3 cita as obrigações do empregador rural. Dentre as mais importantes, temos:

a) realizar avaliações dos riscos para a segurança e a saúde dos trabalhadores e, com base nos resultados obtidos, adotar as medidas de prevenção e proteção adequadas;

b) assegurar que sejam fornecidas aos trabalhadores instruções compreensíveis em matéria de segurança e saúde, bem como toda orientação e supervisão necessárias ao trabalho seguro;

d) adotar medidas de avaliação e gestão dos riscos, com a seguinte ordem de prioridade: eliminação dos riscos, controle de riscos na fonte, redução do risco ao mínimo, inclusive através de capacitação;

e) adoção de medidas de proteção pessoal, no caso de persistirem os riscos.

Nesta norma regulamentadora, fica claro a preocupação com a eliminação dos riscos como sendo prioridade, não só com a utilização do EPI, mas também em relação à ergonomia, fatores climáticos e topográficos e água potável.

Sobre a utilização dos EPIs, um artigo da revista Cipa (ano 38, n. 438) afirma que a utilização desses equipamentos pelos trabalhadores expostos a agrotóxicos é muito efetiva nas médias e grandes propriedades agrícolas, porém é um grande desafio em pequenas propriedades, pois se limita às condições financeiras e à falta de informação.

Nesta mesma norma, foi estipulado o SESTR (serviço especializado em segurança e saúde no trabalho rural) para os empregadores com mais de 50 funcionários, não atingindo o pequeno agricultor.

Outra questão é sobre a receita agronômica, no qual é obrigatória na compra de agrotóxicos e é feita por profissional legalmente habilitado. Nela, o profissional agrônomo faz prescrição com as recomendações de uso de EPI, porém não está em acordo com suas atribuições.

Por fim, minha mensagem a nós consumidores é que fiquemos mais atentos aos efeitos acumulativos dos alimentos contendo agrotóxicos; aos governantes e ministérios do trabalho, saúde e agricultura que fiscalizem mais as propriedades agrícolas, cobrem os produtores pela administração correta e segura desses produtos, assegure a segurança dos trabalhadores e não dê incentivos fiscais à produção e comercialização de pesticidas; empregadores zelem pela segurança e saúde de seus trabalhadores, eles merecem ter uma vida sadia e digna.

Recomendo assistir ao documentário “O Veneno está na mesa II” dirigido por Silvio Tendler. Esse documentário atualiza e avança na abordagem do modelo agrícola nacional atual e de suas consequências para a saúde pública. LINK: https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

Referências:

GUIVANT, J.S. Percepção dos Olericutores da Grande Florianópolis (SC) sobre os riscos decorrentes do uso de agrotóxicos. Rev. Bras. Saúde Ocup. 22, 1994.

http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/o-desafio-de-se-comprovar-na-justica-intoxicacao-por-agrotoxicos

http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/brasil-ainda-usa-agrotoxicos-ja-proibidos-em-outros-paises-9823.html

BRASIL. Ministério da Saúde. FIOCRUZ. SINITOX. http://www.fiocruz.br/sinitox_novo/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=home

http://www.icict.fiocruz.br/content/consumo-intensivo-de-agrot%C3%B3xicos-no-rio-de-janeiro-revela-cen%C3%A1rio-de-intoxica%C3%A7%C3%B5es-

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/politica/1430321822_851653.html

GARCIA, Eduardo. Segurança e Saúde no Trabalho rural com agrotóxicos. Contribuição para uma abordagem mais abrangente. USP, 1996. Disponível em: file:///C:/Users/NOTEBOOK/Downloads/dissert_agrotox_Eduardo_Garcia.pdf.

NR-31. Disponível em: http://acesso.mte.gov.br/data/files/8A7C816A4295EFDF0143067D95BD746A/NR-31%20(atualizada%202013).pdf.

Engenheira Ambiental e pós-graduanda em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo Centro Universitário FEI São Paulo.

 

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